O dia em que conheci Rubem Alves

Há muito tempo atrás alguém me mandou um texto que se chamava “A complicada arte de ver”. Li aquele texto com ternura, pensei em como era iniciado esse tal de Rubem Alves e segui minha vida. O tempo passou. Continuei escrevendo o que me pulsava, sempre olhando tudo com atenção. Uns dias bem contente, inspirada. Outros nem tanto, escrevendo só por precaução – sempre achei que um dia ficaria louca e que escrever podia ser uma forma de salvação. Mas foi numa viagem esse ano que fiz ao Sul que tropecei num livro dele chamado “Ostra feliz não faz pérola”. Pronto. Foi ali que alguma coisa aconteceu.
A vida é muito engraçada. E os caminhos que a gente trilha também. Sempre gostei de escrever. Durante muitos anos escrevi em diários porque precisava deles para entender o caos em que minha alma vivia. A sensação de inadequação no mundo era assustadora. Então comecei a olhar um pouco para fora. Me lembro da primeira crônica que escrevi e mandei para os amigos: chamava-se OS BEIJA-FLORES DO TSUNAMI. Era sobre meu espanto com a emocionante solidariedade dos cariocas ao se reunirem para mandar mantimentos aos sobreviventes daquela tragédia que tinha arrasado a Ásia em janeiro de 2005. Daí em diante tomei coragem e resolvi abrir um blog – essa casa da gente no mundo virtual que todo mundo freqüenta – e ter a possibilidade de ter um espaço para compartilhar idéias e ser lida. Afinal, escrever alguma coisa e essa coisa fazer sentido para uma terceira pessoa dá uma sensação pra lá de boa.
Mas então. Ia eu escrevendo minha história pela estrada afora quando me deparei com o tal livro “Ostra feliz não faz pérola”. Gente, aquele livro fez um Big Bang dentro de mim. Coisa assim difícil mesmo de explicar. Foi um troço. Olha, eu já tinha feito um curso de crônica com Mauro Ventura e ele tinha me apresentado o mundo incrível de muitos cronistas... Rubem Braga, Fernando Sabino e eu amava todos eles. Mas o Rubem Alves, nossa... Engraçado que num dos textos do livro ele fala de um amor à primeira leitura que viveu com uma poetisa chamada Helena Kolody.
Diz ele:
“Sou como aqueles poemas. Li os poemas e senti o espanto de me descobrir. O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber. Bem disse Bernardo Soares que “a arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles”. Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro. Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido. Meu reflexo não me surpreende. Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida, aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim. O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via. Por isso a poesia é salvação. Na minha solidão, dou-me conta de que existe uma outra pessoa cuja alma se parece com a minha. Fico grato porque tal pessoa existe. Minha solidão se transforma em comunhão.”
Rubem, se me permite a metidez, faço das suas as minhas palavras. No final, somos todos seres humanos misturados e refletidos num único espelho cósmico, admirados com nossa própria beleza e mais ainda com nossa espantosa semelhança. Já dizia Affonso Romano de Sant’anna: “Escrevo, escrevo, escrevo... e algo se grava e se esclarece no ato de escreviver.” Leio seus textos como quem ouve uma aula mágica sobre a vida. E me emociono e compreendo, finalmente, o que vim fazer.
Você ensina aos jovens escritores que literatura não se faz só com coisas importantes, mas também com as coisas simples do cotidiano, porque é nelas que habita o essencial. Se minha busca era por clarear o propósito do que escrevia – o que, para quem, de que forma - depois de ler tantas palavras suas, compreendo que a tradução do dialeto que minha alma fala é muito mais fácil de ser traduzido do que eu imaginava e que essa será uma missão para lá de divertida. Tudo agora está claro como água cristalina.
Escreverei.
Escreviverei.
Escrito por Tatiana Telink às 22h13
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