Na semana passada fui ver a exposição de Anish Kapoor no CCBB. Fui porque alguns amigos tinham ido e tinham voltado de lá deslumbrados. Li alguma coisa no jornal mas nunca tinha ouvido falar do tal do indiano. Mas o que de fato tinha me motivado a enfrentar o caótico centro da cidade nada mais era do que uma enorme curiosidade. Eu tinha visto a fotografia de um dos objetos que estavam expostos e aquilo tinha me mordido como uma formiga. Toda hora eu me lembrava. Típico sentimento que não se explica. E é justamente sobre esse sentimento que eu adoraria conversar com o Luiz Camillo Osório, crítico d'O Globo, que escreveu uma matéria sobre a exposição no Segundo Caderno de sábado passado. Senti que ele ficou um tempão tentando explicar, justificar, especular, à respeito daquilo tudo que estava sentindo. Quando me bateu fundo uma questão que sempre me volta à cabeça: por que será que as pessoas estão sempre tentando explicar a Arte? Não se explica a Arte assim como não se explica a Vida. A obra de arte existe porque o artista precisa colocar para fora aquilo que não cabe mais dentro de si. E o público - aquele que vê, se emociona, sente, absorve - se identifica... ou não. Acabou. Sinceramente não deu para entender se ele gostou da exposição, ou não. Diz que deslumbra, mas não intriga. Poxa vida, mas o deslumbramento em si já não é um fator intrigante? Eu fiquei intrigadíssima com tudo, não só com o que me acontecia, como o que acontecia com os outros, que é sempre o meu maior presente.
A exposição é uma viagem aos sentidos. Uma grande possibilidade para nós - simples humanos - experimentarmos sensações inéditas. Aquela primeira escultura no saguão principal já é um socão na boca do estômago. Dizem que é a mais famosa dele. Se chama Ascension. Como é que o homem conseguiu esculpir o que a gente nunca imaginou tocar? Aquela kundalini gigantesca de fumaça é uma das coisas mais fantásticas que eu já vi na minha vida. Porque é densa. E forte. E mágica. As pessoas entram ali e ficam, literalmente, hipnotizadas. Demorei muito para conseguir me desvencilhar daquela emoção e seguir em frente. Uma hora consegui.
No segundo andar, encontrei uma sala cheia de tesouros. Tudo grande. Não só no sentido do tamanho, mas no efeito que faz dentro da gente. Como a cápsula dourada. Aquela canoa de ouro gigante me deu a impressão de ser, na realidade, uma disfarçada nave espacial que faz viagens periódicas ao centro da Terra. Depois, as texturas na parede branca são um susto. Onde, de frente não se vê nada, de lado, tudo se revela. Mas isso eu não vou contar. Pode perder a graça. Depois tem a Íris... que não é só um orifício prateado se fazendo de espelho, é o buraco negro do cosmos que a gente sempre quis ver de perto e nunca pode! Não acredita? Pois estas são as esculturas mais conhecidas de Kapoor. O que são? Superfícies espelhadas, frutos de um trabalho de polimento intensivo, que podem demorar meses ou anos para ficar prontas, como é o caso de sua mais notória obra pública – Cloud Gate que está no Millenium Park de Chicago – e que demorou, simplesmente, cinco anos para ser totalmente polida. Enfim, nessa mesma sala está o tubo. Um tubo de aço e fibra de vidro. Forma fila para entrar e a experiência de ver os outros entrando e saindo de lá é única: não tem um que não saia aos gritinhos. Eu entrei e vivi uma experiência quântica à la Quem Somos Nós (What the Bleep do We Know?). Viva e verá. Nunca estive num lugar onde os meus olhos não sabiam o que fazer.
Como em qualquer exposição, ninguém pode tocar nas obras. Mas ali, é expressamente proibido. Tão proibido que a direção do CCBB teve que plantar um segurança ao lado de cada escultura. Imagino o que não devia ter de gente tendo um treco de emoção e se atracando nos objetos. É meio estranho vivenciar aquilo tudo com um segurança sério e imparcial te olhando como se você fosse um ser de outro planeta. Mas eu tive sorte. Porque vi a exposição justamente na hora da excursão dos cegos. E quando chegamos na sala da escultura de cera vermelha, eu finalmente achei uma boa desculpa para chorar o que já estava transbordando há um tempão.
Esta sala é A escultura. O indiano tem alguém que prepara especialmente para ele uma cera, onde ele consegue esculpir cinco toneladas dela através de uma parede branca de dez metros de altura. Consegue imaginar isso caro leitor? Esta escultura chama-se Dividir. A operação artística acontece enquanto a cera ainda está mole. São sete pessoas que atuam sobre ela, manipulando a parede de uma lado para o outro, até endurecer a massa, obrigando-a finalmente à inércia e à sua forma final. Pronto. Está pronta a escultura. Um imenso e revolto oceano de sangue coagulado. Só vendo para crer. Ou não. Eu vi e não acreditei no que estava vendo. Os cegos, que podiam tocá-la, esmagavam a massa entre os dedos e isso me dava a impressão da consistência ser como a de um batom. Mudos, tocavam naquilo com o deslumbramento da alma. A guia, desesperada, tentava achar palavras que pudessem traduzir o cenário... coitada, ficou com uma tarefa árdua e inútil. Aquilo não se explica com a razão. Mas tenho certeza de que eles estavam absorvendo aquilo tudo muito melhor do que todos nós. Não é à toa que vi vários olhos cegos cheios de lágrimas...
A exposição de Anish Kappor no CCBB é uma enorme possibilidade de deslumbrar-se, intrigar-se, emocionar-se. E no mínimo compreender que, às vezes, o não-entendimento de alguma coisa é a forma mais profunda de relacionar-se com ela.