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DE CLARICE LISPECTOR

VOCÊ DE REPENTE NÃO ESTRANHA DE SER VOCÊ?
Escrito por Tatiana Telink às 19h36
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DE HILDA HILST
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
***
Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas descomedida Árdua Construtor de ilusões examino-te sôfrega Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer E tu fosses o dia magnânimo Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
* * *
Que canto há de cantar o que perdura? A sombra, o sonho, o labirinto, o caos A vertigem de ser, a asa, o grito. Que mitos, meu amor, entre os lençóis: O que tu pensas gozo é tão finito E o que pensas amor é muito mais. Como cobrir-te de pássaros e plumas E ao mesmo tempo te dizer adeus Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível? O toque sem tocar, o olhar sem ver A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis. Como te amar, sem nunca merecer?
Escrito por Tatiana Telink às 02h28
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DE PAULO LEMINSKI

as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas deixa no papel esta poça de letras
Escrito por Tatiana Telink às 16h24
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POEMAS DE LI PO

Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho. Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo. Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua: com ela e a minha sombra, já somos três pessoas. Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço. A sombra e a lua, companheiras casuais, divertem-se comigo, na primavera. Quando canto, a lua vacila. Quando danço, a minha sombra se agita em redor. Antes de embriagados, todos se divertem juntos. Depois, cada um vai para a sua casa. Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis: nossos encontros são na Via Láctea...
***
Reunião de amigos (vigília amistosa)
Para lavar velhas mágoas, É preciso beber mil frascos. As belas noites são feitas para as palavras puras. A lua branca deve impedir o sono. Ébrios nos deitaremos na montanha deserta. Céu e terra nos servirão de colcha e travesseiro.
***
Li Po foi um poeta chinês que viveu lá pelos idos de 700 e tinha uma verdadeira paixão pela lua, pelo vinho e pela melancolia que a solidão lhe provocava. Se não fosse a mágica combinação desse trio, ele certamente não teria escrito com tanta maestria as lindas poesias que escreveu ao longo de sua vida. Fui apresentada a ele numa livraria por um fantasma de samurai que rondava por lá e sem dúvida foi um dos melhores instantes que vivi nos últimos tempos.
Para quem quiser se deleitar: "Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu", Nova Fronteira, 1996, RJ.
Escrito por Tatiana Telink às 03h00
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A SAGA DE UMA CHALANA
A Chalana está em nossa família há praticamente três gerações e agora a perspectiva de vendê-la está me deixando um bocado deprimida. É como se parte da minha história fosse ser vendida também. A um ferro-velho, o que é pior. Esse provavelmente vai ser o futuro da Chala, como carinhosamente chamamos nosso Fiat 147, bege, ano 86.
Na época em que foi comprado – por minha avó Luzia – era considerado um automóvel de primeira. Naquele tempo minha avó chamava carro de automóvel. A caixa de sapatos estava nova em folha e tinha um incrível motor de arranque, era super econômico e ainda por cima tinha um radinho porreta. Ela foi uma verdadeira guerreira. Enfrentou esburacadas estradas em Teresópolis, viagens para todos os cantos do estado, salvou a família em momentos de perigo. Foi com ela que eu aprendi a dirigir. Foi nela que enfrentei a minha primeira blitz. Assim como foi nela também que dei meu primeiro beijo.
Os anos foram passando e quando Dona Zizi começou a perder a memória, a Chalana várias vezes foi esquecida na cidade. Mas a danada era tão famosa que ligavam para a casa da minha avó especialmente para dar seu paradeiro. Praticamente um ser da família. Foi nessa época que eu batizei a pobre de Chalana. A novela Pantanal era uma febre e a tal da embarcação que ia e vinha pelos rios pantaneiros se parecia muito com o nosso Fiat.
Mas muito tempo se passou desde então. Muito. Ela foi reformada há uns anos atrás. Ganhou pintura nova, uma revisão geral. Voltou da oficina zerada, um show. E estava lá, meio guardada meio esquecida na garagem da minha mãe, quando no mês passado precisei revitalizar a botinha ortopédica. É que meu carro foi para o conserto sem data de volta. Uma batida violenta num cruzamento internou meu Tipo, o Chili, e desde então tenho me impressionado muito com o disparate de sentimentos que a Chalana provoca no povo.
Ou as pessoas se irritam profundamente com a sua presença, chegando a balançar a cabecinha negativamente em tom de reprovação, ou há uma comoção diante da preciosidade que é esta máquina do tempo. Acontece de tudo. Olhares curiosos. Pessoas que se cutucam na rua ao vê-la passar - como se fosse a própria garota de Ipanema – gente que francamente sorri... não o riso de deboche - que também acontece - mas o sorriso de admiração. Outro dia teve um senhor que me abordou no sinal perguntando quanto ela valia. Eu, quase ofendida, disse que não vendia um membro da família. Perdi uma baita oportunidade de fazer um bom negócio... o cara tinha cara de colecionador!
É, mas a Chalana não tem só qualidades não. Tem uns defeitinhos também que são de amargar. Como o cheiro horrível que deixa na gente de gasolina. Ou a cara de tacho quando se passa uma marcha... parece que é a gente que dirige mal, mas não é não. Ela arranha mesmo, qualquer marcha. Resmunga para acelerar, reclama para frear. Agora deu para fazer um nheque-nheque quando a gente vai parar. Mas é coisa de gente velha mesmo. Ela tem o direito. São 30 anos servindo a Família Buscapé. Está mais do que na hora de aposentá-la. Por isso mesmo que essa coisa de vendê-la a um ferro velho está me deixando com o coração partido. Não me parece um fim digno e justo para quem teve um vida inteira de dedicação e fidelidade.
Estou pensando seriamente em promover uma reunião familiar para tentar amenizar essa situação. Bom seria mandá-la a um museu. Mas quem vai levar a sério um carro que atende por Chalana? Acho que vou mandar uma carta para o Luciano Huck. Já pensou a Chala no Lata Velha? Olha... a gente nunca sabe o que o destino nos reserva...
Escrito por Tatiana Telink às 02h02
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AUSÊNCIA - VINíCIUS DE MORAES

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz Não te quero ter porque em meu ser está tudo terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado. Eu deixarei ... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite Porque eu encostei a minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Escrito por Tatiana Telink às 02h36
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TEMPOS ESVAZIADOS

Tem uns tempos complicados na vida que ou a gente assume a necessidade de solucioná-los ou assume a necessidade de uma postura zen-budista perante eles. São os tempos esvaziados. Eles acontecem praticamente todos os dias da nossa existência. Fazem parte da rotina, do feijão-com-arroz, do escovar os dentes. Não tem como escapar. É o caso do tempo que esperamos um elevador. Pensei justamente nesse texto hoje depois do oitavo minuto sozinha na garagem, olhando a porta do elevador fechada. Eu já tinha tentado meditar, fechar os olhos, esvaziar a mente, respirar profundamente, ir fundo ao néctar do meu silêncio interior, mas não consegui. A irritação pela impressão de tempo perdido foi maior.
A mesma irritação me abate quando sou pega de surpresa e calho de ter que ir ao banco sem ter nada para ler dentro da bolsa. Banco é sinônimo de fila. E fila em banco é sinônimo de tempo esvaziado. Muitas vezes tento ser positiva, aproveitar para observar as pessoas, essa absurda diferença que há entre nós - indivíduos de mesma espécie – e todas as nossas curiosas particularidades. Crio uma história para cada um, depois vou juntando os enredos e tudo acaba em novela. Mas mesmo nessa compulsão-criativa-instantânea, esse ato desesperado de aproveitamento de tempo nada mais é que um retrato de tempo esvaziado também. Como se o próprio tivesse sido mesmo consumido sem propósito. Queimado. Desperdiçado. Jogado fora.
Tempo perdido em trânsito engarrafado então, não preciso nem falar. Todo mundo já falou, já sofreu, sofre e não há nada que se possa fazer. A inexorável realidade dos tempos modernos. Milhões de carrinhos, apertadinhos, engavetadinhos num gigantesco quebra-cabeça de ruas. E as pessoas lá dentro pensando – o que é mesmo que eu estou fazendo aqui? – e olha que pode ter boa música, boa companhia, snacks para comer, coca-cola geladinha que alguém acabou de te vender... nada aplaca a dor do tempo esvaziado.
A danação não tem a ver com o tempo que escapa. Mas com o que foge sem sentido. Gasto muito tempo olhando o céu quando ele está daquela azul de chorar. Olhando o que o sol faz com as coisas de manhãzinha. Observando Clara pintar com cotonete, a cebola fritar na manteiga. E as coisas que tem água então, nossa... gasto um tempo que nem sei. Nada melhor do que ver cachoeira cachoeirar. Até aquelas fontes de água em casa esotérica me hipnotizam. No ato. Posso ficar lá por horas vendo a água fazer nada.
A questão é que esse tipo de coisa não esvazia meu tempo. Mas preenche ele de um monte de riqueza. Há uma enorme diferença em ficar olhando a porta do elevador fechada esperando ele resolver chegar e olhar um arco-íris se desfazer no céu. São tempos completamente diferentes. O primeiro é como estar olhando a areia da ampulheta cair, a outra é ver o milagre da vida se expandir. Por que eu não subo de escada? Ah leitor, eu não sou uma atleta. E no mais, subir escada também é um tempo esvaziado. A não ser que elas tenham enormes janelas dando para o mar.
Escrito por Tatiana Telink às 17h40
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De João e o Kino

MAIS IMPORTANTE QUE O LUGAR É O MOVIMENTO
MAIS QUE O ATO, O EFEITO.
EM VERDADE VOS DIGO: PROBLEMA NÃO É
ESTAR EM CIMA DO MURO, PROBLEMA HÁ
EM SE ESTAR PARADO.
CAMINHAR SOBRE OS MUROS É O SEGREDO DOS LABIRINTOS.
Escrito por Tatiana Telink às 16h22
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