O QUE TORNA A VIDA INCRÍVEL


O dia em que conheci Rubem Alves

Há muito tempo atrás alguém me mandou um texto que se chamava “A complicada arte de ver”. Li aquele texto com ternura, pensei em como era iniciado esse tal de Rubem Alves e segui minha vida. O tempo passou. Continuei escrevendo o que me pulsava, sempre olhando tudo com atenção. Uns dias bem contente, inspirada. Outros nem tanto, escrevendo só por precaução – sempre achei que um dia ficaria louca e que escrever podia ser uma forma de salvação. Mas foi numa viagem esse ano que fiz ao Sul que tropecei num livro dele chamado “Ostra feliz não faz pérola”. Pronto. Foi ali que alguma coisa aconteceu.

 

A vida é muito engraçada. E os caminhos que a gente trilha também. Sempre gostei de escrever. Durante muitos anos escrevi em diários porque precisava deles para entender o caos em que minha alma vivia. A sensação de inadequação no mundo era assustadora. Então comecei a olhar um pouco para fora. Me lembro da primeira crônica que escrevi e mandei para os amigos: chamava-se OS BEIJA-FLORES DO TSUNAMI. Era sobre meu espanto com a emocionante solidariedade dos cariocas ao se reunirem para mandar mantimentos aos sobreviventes daquela tragédia que tinha arrasado a Ásia em janeiro de 2005. Daí em diante tomei coragem e resolvi abrir um blog – essa casa da gente no mundo virtual que todo mundo freqüenta – e ter a possibilidade de ter um espaço para compartilhar idéias e ser lida. Afinal, escrever alguma coisa e essa coisa fazer sentido para uma terceira pessoa dá uma sensação pra lá de boa.

 

Mas então. Ia eu escrevendo minha história pela estrada afora quando me deparei com o tal livro “Ostra feliz não faz pérola”. Gente, aquele livro fez um Big Bang dentro de mim. Coisa assim difícil mesmo de explicar. Foi um troço. Olha, eu já tinha feito um curso de crônica com Mauro Ventura e ele tinha me apresentado o mundo incrível de muitos cronistas... Rubem Braga, Fernando Sabino e eu amava todos eles. Mas o Rubem Alves, nossa... Engraçado que num dos textos do livro ele fala de um amor à primeira leitura que viveu com uma poetisa chamada Helena Kolody.

 

Diz ele:

 

“Sou como aqueles poemas. Li os poemas e senti o espanto de me descobrir. O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber. Bem disse Bernardo Soares que “a arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles”. Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro. Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido. Meu reflexo não me surpreende. Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida, aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim. O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via. Por isso a poesia é salvação. Na minha solidão, dou-me conta de que existe uma outra pessoa cuja alma se parece com a minha. Fico grato porque tal pessoa existe. Minha solidão se transforma em comunhão.”

 

Rubem, se me permite a metidez, faço das suas as minhas palavras. No final, somos todos seres humanos misturados e refletidos num único espelho cósmico, admirados com nossa própria beleza e mais ainda com nossa espantosa semelhança. Já dizia Affonso Romano de Sant’anna: “Escrevo, escrevo, escrevo... e algo se grava e se esclarece no ato de escreviver.” Leio seus textos como quem ouve uma aula mágica sobre a vida. E me emociono e compreendo, finalmente, o que vim fazer.

 

Você ensina aos jovens escritores que literatura não se faz só com coisas importantes, mas também com as coisas simples do cotidiano, porque é nelas que habita o essencial. Se minha busca era por clarear o propósito do que escrevia – o que, para quem, de que forma - depois de ler tantas palavras suas, compreendo que a tradução do dialeto que minha alma fala é muito mais fácil de ser traduzido do que eu imaginava e que essa será uma missão para lá de divertida. Tudo agora está claro como água cristalina.

 

Escreverei.

Escreviverei. 



Escrito por Tatiana Telink às 22h13
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MEUS SEIOS DOEM

Meus seios doem.

E são hoje o símbolo maior da minha existência e exaustão.

No alvorecer do dia eles estão cheios de alimento e frescor. Descansados e intumescidos, trazem no leite a aurora de toda a leveza do desabrochar da vida. E do mais recôndito do meu ser, oferecem energia vital ao que mais amo - minhas filhas.

Mas quando a noite se deita sobre o sol, é nos meus seios que vejo meu cansaço refletido. Contraídos, doloridos e vazios, não há fome, necessidade ou desejo que os façam fabricar mais alimento. Talvez para algum afeto possam servir, através do calor da pele ou das ondas sonoras que atravessam o meu peito e reverberam as batidas do coração. Mas mesmo assim.. doem.

É quando isso acontece que percebo que o fio invisível que venho tecendo minha vida desde que minhas meninas nasceram é feito de algodão. Numa porção doce e cor de rosa, meu algodoar diário começa quando abro os olhos e antes mesmo do espreguiçar iniciam-se minhas infinitas funções maternas... A primeira mamada de uma se amarra ao copo de Toddy da outra, que vem morno e doce -  não do peito - mas da cozinha. A primeira troca de fraldas tem um monte de sorrisos pendurados nela. A fraldinha puxa o café que tomo correndo já que tem uma turminha louca para brincar. Mamãe, vamos desenhar? Mamãe vamos montar a casa de boneca? E é no enrolar desse gigante algodão-doce que tenho confeitado os meus dias, pendurada numa roda gigante, num parque de diversões imaginário...

 

...ai o sino ta tocando – meio-dia, hora do almoço!

Clara, escovar os dentes - vamos correr para a escola

Catarina, agora seu banho – xíí... já está na hora do mingau

passeio -sol – parquinho - outra fralda suja de cocô?

hora da soneca - mocinha...chegou da rua direto lavar as mãos - hora do jantar

vamos tomar um banho para dormir quentinha? – olha o pijama

Clara, escovar os dentes por favor filha – quer que a mamãe leia um livro?

e depois cantar todo o repertório de músicas de ninar

boa noite meus anjinhos... ai que bom que dormiram... finalmente...

Mamãe, traz um copo d’água! Tô com sede!

 

Meus seios doem.

Mas essa dor que vem do colo é a mais prazerosa das dores humanas. Porque é dor que significa, que se justifica, é dor que enche e esvazia. Que transborda e logo se esvai. Dor que formiga o mais profundo da essência feminina e sua potencialidade selvagem de nutrir um outro ser.

Nunca imaginei que o ofício de ser mãe fosse ser essa experiência tão surreal. Que fosse ser esse sacrifício - esse sacro-ofício. Essa alegria tamanha. Esse milagre que é vivido na intimidade dos dias, na simplicidade lúdica da infância, no compartilhar da melhor e mais autêntica versão que a humanidade pode alcançar vir a ser.

Meus seios doem.

E como não doer, se tudo o que tinha dei em forma de ser?

Doem mesmo porque dói tudo que se refere à essa coisa enlouquecedora que é ser mãe: doem as contrações, dói o parto, doem os bicos que se racham nas primeiras sugadas, doem na pele as horas não dormidas, doem as costas, doem os pontos. Dói o medo de perdê-los, de não compreende-los, de não saber educá-los.

Mas sobretudo, dói a imensidão do amor com que amamos essas criaturas que saíram de dentro de nós.

 

(este texto é especialmente dedicado à minha irmã Gisele, que durante todos os meus meses de reclusão, insistiu para que eu escrevesse, entre mamadas e fraldas, qualquer linha que fosse, para que o blog não ficasse esquecido. Obrigada Gi, pela força de sempre. Te amo!)



Escrito por Tatiana Telink às 23h02
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De Friedich Nietzsche

“Ninguém pode construir em teu lugar 
as pontes que precisarás passar, 
para atravessar o rio da vida
ninguém, exceto tu, só tu. 
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão 
para levar-te além do rio; 
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias. 
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar. 
Onde leva? Não perguntes, segue-o.”



Escrito por Tatiana Telink às 15h19
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Foto de Isadora Duncan

Nada se sabe, tudo se imagina.”  Federico Fellini 



Escrito por Tatiana Telink às 01h55
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QUANDO PABLO NERUDA FALA DE AMOR...

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O
vento da vida pôs-te ali
.
A
princípio não te vi: não
soube
que ias comigo
,
até que
as tuas raízes
atravessaram o
meu peito
,
se uniram aos
fios do meu sangue
,
falaram
pela minha boca
,
floresceram
comigo.



Escrito por Tatiana Telink às 23h22
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MISERICÓRDIA

ela entrou no ônibus pela porta da frente. se arrastava sobre duas pernas finas e deficientes. tinha um cheiro forte de suor, vestia trapos no lugar de roupas, tinha os dentes cariados, um gorro preto e a pela negra de dor. quando abriu a boca, tinha um tom de voz tão teatral que olhei para ver se era de verdade. parecia demenciada. falava como se o texto estivesse na ponta da língua, de certo ensaiado no intento de arrancar alguns tostões dos passageiros. às vezes fazia uma firula na voz para parecer mais dramática. tive vontade de rir da estratégia. mas meu riso foi entristecendo à medida em que as palavras saiam de sua boca. teria sido tudo igual, se não fossem as palavras escolhidas, ditas num português tão perfeito e bem pronunciado que eu mal pude acreditar no que ouvia. "peço ajuda e compaixão para que me ajudem a criar meus filhos. o pai, numa atitude covarde, me abandonou na hora em que mais precisei dele. não tenho condições de trabalhar. dos meus seios, já não consigo fazer brotar leite para alimentar a quem coloquei no mundo." nenhum movimento no ônibus. ela em silêncio fechou os olhos e começou a chorar. "será possível que nenhum de vocês terá a misericórdia de me ajudar?" com efeito, alguns passageiros começaram a mexer em suas carteiras. eu, inclusive. ela então vagarosamente foi recolhendo o dinheiro. depois de juntar as moedas, voltou a falar, com a voz ainda mais impostada, como se estivesse mesmo no ato final de uma ópera. "que Deus lhes retribua em dobro a este ato de bondade, com a única coisa que vale para nossa existência: saúde. Sa-ú-de. Porque o resto, minha gente, é só ilusão... só ilusão... só ilusão."

quando saltei do ônibus, ela ainda repetia essa mesma frase, sentada num dos bancos com a cabeça encostada no vidro, olhando para fora o dia triste de chuva.



Escrito por Tatiana Telink às 21h52
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A JORNADA DO DESLUMBRAMENTO

Cloud gate - Millenium Park - Chicago

Na semana passada fui ver a exposição de Anish Kapoor no CCBB. Fui porque alguns amigos tinham ido e tinham voltado de lá deslumbrados. Li alguma coisa no jornal mas nunca tinha ouvido falar do tal do indiano. Mas o que de fato tinha me motivado a enfrentar o caótico centro da cidade nada mais era do que uma enorme curiosidade. Eu tinha visto a fotografia de um dos objetos que estavam expostos e aquilo tinha me mordido como uma formiga. Toda hora eu me lembrava. Típico sentimento que não se explica. E é justamente sobre esse sentimento que eu adoraria conversar com o Luiz Camillo Osório, crítico d'O Globo, que escreveu uma matéria sobre a exposição no Segundo Caderno de sábado passado. Senti que ele ficou um tempão tentando explicar, justificar, especular, à respeito daquilo tudo que estava sentindo. Quando me bateu fundo uma questão que sempre me volta à cabeça: por que será que as pessoas estão sempre tentando explicar a Arte? Não se explica a Arte assim como não se explica a Vida. A obra de arte existe porque o artista precisa colocar para fora aquilo que não cabe mais dentro de si. E o público - aquele que vê, se emociona, sente, absorve - se identifica... ou não. Acabou. Sinceramente não deu para entender se ele gostou da exposição, ou não. Diz que deslumbra, mas não intriga. Poxa vida, mas o deslumbramento em si já não é um fator intrigante? Eu fiquei intrigadíssima com tudo, não só com o que me acontecia, como o que acontecia com os outros, que é sempre o meu maior presente.

A exposição é uma viagem aos sentidos. Uma grande possibilidade para nós - simples humanos - experimentarmos sensações inéditas. Aquela primeira escultura no saguão principal já é um socão na boca do estômago. Dizem que é a mais famosa dele. Se chama Ascension. Como é que o homem conseguiu esculpir o que a gente nunca imaginou tocar? Aquela kundalini gigantesca de fumaça é uma das coisas mais fantásticas que eu já vi na minha vida. Porque é densa. E forte. E mágica. As pessoas entram ali e ficam, literalmente, hipnotizadas. Demorei muito para conseguir me desvencilhar daquela emoção e seguir em frente. Uma hora consegui.

No segundo andar, encontrei uma sala cheia de tesouros. Tudo grande. Não só no sentido do tamanho, mas no efeito que faz dentro da gente. Como a cápsula dourada. Aquela canoa de ouro gigante me deu a impressão de ser, na realidade, uma disfarçada nave espacial que faz viagens periódicas ao centro da Terra. Depois, as texturas na parede branca são um susto. Onde, de frente não se vê nada, de lado, tudo se revela. Mas isso eu não vou contar. Pode perder a graça. Depois tem a Íris... que não é só um orifício prateado se fazendo de espelho, é o buraco negro do cosmos que a gente sempre quis ver de perto e nunca pode! Não acredita? Pois estas são as esculturas mais conhecidas de Kapoor. O que são? Superfícies espelhadas, frutos de um trabalho de polimento intensivo, que podem demorar meses ou anos para ficar prontas, como é o caso de sua mais notória obra pública – Cloud Gate que está no Millenium Park de Chicago – e que demorou, simplesmente, cinco anos para ser totalmente polida. Enfim, nessa mesma sala está o tubo. Um tubo de aço e fibra de vidro. Forma fila para entrar e a experiência de ver os outros entrando e saindo de lá é única: não tem um que não saia aos gritinhos. Eu entrei e vivi uma experiência quântica à la Quem Somos Nós (What the Bleep do We Know?). Viva e verá. Nunca estive num lugar onde os meus olhos não sabiam o que fazer.

Como em qualquer exposição, ninguém pode tocar nas obras. Mas ali, é expressamente proibido. Tão proibido que a direção do CCBB teve que plantar um segurança ao lado de cada escultura. Imagino o que não devia ter de gente tendo um treco de emoção e se atracando nos objetos. É meio estranho vivenciar aquilo tudo com um segurança sério e imparcial te olhando como se você fosse um ser de outro planeta. Mas eu tive sorte. Porque vi a exposição justamente na hora da excursão dos cegos. E quando chegamos na sala da escultura de cera vermelha, eu finalmente achei uma boa desculpa para chorar o que já estava transbordando há um tempão.

Esta sala é A escultura. O indiano tem alguém que prepara especialmente para ele uma cera, onde ele consegue esculpir cinco toneladas dela através de uma parede branca de dez metros de altura. Consegue imaginar isso caro leitor? Esta escultura chama-se Dividir. A operação artística acontece enquanto a cera ainda está mole. São sete pessoas que atuam sobre ela, manipulando a parede de uma lado para o outro, até endurecer a massa, obrigando-a finalmente à inércia e à sua forma final. Pronto. Está pronta a escultura. Um imenso e revolto oceano de sangue coagulado. Só vendo para crer. Ou não. Eu vi e não acreditei no que estava vendo. Os cegos, que podiam tocá-la, esmagavam a massa entre os dedos e isso me dava a impressão da consistência ser como a de um batom. Mudos, tocavam naquilo com o deslumbramento da alma. A guia, desesperada, tentava achar palavras que pudessem traduzir o cenário... coitada, ficou com uma tarefa árdua e inútil. Aquilo não se explica com a razão. Mas tenho certeza de que eles estavam absorvendo aquilo tudo muito melhor do que todos nós. Não é à toa que vi vários olhos cegos cheios de lágrimas...

A exposição de Anish Kappor no CCBB é uma enorme possibilidade de deslumbrar-se, intrigar-se, emocionar-se. E no mínimo compreender que, às vezes, o não-entendimento de alguma coisa é a forma mais profunda de relacionar-se com ela.

 

 



Escrito por Tatiana Telink às 00h40
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De Ralph W. Emerson

 

Insiste em ti mesmo. Nunca imites.



Escrito por Tatiana Telink às 22h34
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PÉROLAS DO LEMINSKI

leite, leitura,
letras, literatura,
    tudo o que passa,
tudo o que dura
    tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
    tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
    de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

*** 

abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente

eu era eterno

***

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha



Escrito por Tatiana Telink às 14h37
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ONDE MINHA ALMA HABITA

O lar da alma é o abrigo onde mora a minha alegria.
É o lugar onde conservo com todo o cuidado a seiva que me alimenta.
Onde preservo algumas das minhas últimas ilusões.
Onde eu guardo as minhas criativas estratégias de salvação.
Meus ungüentos para as dores mais fundas.
A esperança de um dia ainda encontrar algum sentido
qualquer que seja
para toda essa bagunça que me meti quando resolvi nascer...

por isso vos digo
onde minha alma habita
é onde eu estou em essência e excelência...

no adágio de Albinoni
na taça de vinho tinto – cheia!
no mar, onde a lua reflete a prata
e o sol reflete o ouro
num enxame de vagalumes
no vento que varre pensamento
na água corrente
numa revoada de borboletas
na primeira mordida do brigadeiro
na sala de cinema
nos filmes que viraram célula
nos sacos grandes de pipoca
nas declarações de amor, feitas ou recebidas
nas caretas da Clara
no banho quente e cheiroso
no prazer de fazer algo de bom para alguém
no entardecer
no amanhecer
num varal de roupas lavadas
numa roupa recém passada
num trilho de trem
numa estrada de terra
na sutileza das poesias do Mario Quintana
na poesia das crônicas do Rubem Braga
na melodia das letras do Chico Buarque
na caneta esferográfica
no olhar da minha mãe
no bigode do meu pai
na gargalhada da minha irmã
na parede pintada de verde-limão
no céu azul quando está muito azul
no numinoso das nuvens
no escuro da noite que revela as estrelas
nos meus cabelos quando estão vermelhos
na dor das esculturas de Camille Claudel
nos corpos com gavetas de Salvador Dali
na paz que me dá ouvir Gurumayi cantar
nos desenhos da fumaça do incenso
na página de um livro bom
nas palavras preciosas
nas estantes cobertas de livros
no café expresso da livraria
na minha coleção de penas
no apito do trem
no badalar dos sinos
no assovio de alguém
nos canais de Veneza
nas cores de Veneza
no desejo diário de voltar à Veneza
na chuva – antes, durante e depois
no cheiro de esperança que ela impregna o mundo
na horta
no pomar
no balão colorido que um dia eu ainda hei de voar
na pipa que ensina leveza
na cereja que ensina a beleza
no passarinho que ensina a gente a ser livre
na gentileza inesperada
no olhar demorado de alguém desconhecido
no suspiro
no espirro
na saúde
na lágrima que escorre
no bocejo que contamina
na semente do morango que estala entre os dentes
no peixe frito na beira da praia
no caldo de cana na beira da estrada
no pacote fechado de presente
no orgasmo
(acho que nessa hora ela não habita, ela grita)
na dor feminina que é sangrar todo mês
no meu blush
no meu perfume de almíscar
nas minhas botas novas de camurça
nas cartas escritas
nas cartas escondidas
nas cartas esquecidas
no cheiro de pão no fim da tarde
no cheiro de canela, de pó de café
de manjericão no molho de tomate
no primeiro gole do chopp
nas fotografias que tem sorriso
na compaixão que me arrebatam os mendigos
na lembrança do que fui na memória dos melhores amigos
na esperança do que ainda posso fazer com a minha própria vida 

Essa lista não tem fim. Nunca terá, só no dia que eu morrer. Até lá...



Escrito por Tatiana Telink às 01h04
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DE CLARICE LISPECTOR

 

VOCÊ DE REPENTE NÃO ESTRANHA DE SER VOCÊ?

 



Escrito por Tatiana Telink às 19h36
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DE HILDA HILST

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

*** 

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer. 

* * * 

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível 

E o que eu desejo é luz e imaterial. 

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?



Escrito por Tatiana Telink às 02h28
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DE PAULO LEMINSKI

as coisas estão pretas

uma
chuva de estrelas

deixa no papel

esta
poça de letras



Escrito por Tatiana Telink às 16h24
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POEMAS DE LI PO

Bebo sozinho ao luar

Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea...

***

Reunião de amigos (vigília amistosa)

Para lavar velhas mágoas,
É preciso beber mil frascos.
As belas noites são feitas para as palavras puras.
A lua branca deve impedir o sono.
Ébrios nos deitaremos na montanha deserta.
Céu e terra nos servirão de colcha e travesseiro.

***

Li Po foi um poeta chinês que viveu lá pelos idos de 700 e tinha uma verdadeira paixão pela lua, pelo vinho e pela melancolia que a solidão lhe provocava. Se não fosse a mágica combinação desse trio, ele certamente não teria escrito com tanta maestria as lindas poesias que escreveu ao longo de sua vida. Fui apresentada a ele numa livraria por um fantasma de samurai que rondava por lá e sem dúvida foi um dos melhores instantes que vivi nos últimos tempos.

Para quem quiser se deleitar: "Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu",  Nova Fronteira, 1996, RJ.



Escrito por Tatiana Telink às 03h00
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A SAGA DE UMA CHALANA

A Chalana está em nossa família há praticamente três gerações e agora a perspectiva de vendê-la está me deixando um bocado deprimida. É como se parte da minha história fosse ser vendida também. A um ferro-velho, o que é pior. Esse provavelmente vai ser o futuro da Chala, como carinhosamente chamamos nosso Fiat 147, bege, ano 86.

Na época em que foi comprado – por minha avó Luzia – era considerado um automóvel de primeira. Naquele tempo minha avó chamava carro de automóvel. A caixa de sapatos estava nova em folha e tinha um incrível motor de arranque, era super econômico e ainda por cima tinha um radinho porreta. Ela foi uma verdadeira guerreira. Enfrentou esburacadas estradas em Teresópolis, viagens para todos os cantos do estado, salvou a família em momentos de perigo. Foi com ela que eu aprendi a dirigir. Foi nela que enfrentei a minha primeira blitz. Assim como foi nela também que dei meu primeiro beijo.

Os anos foram passando e quando Dona Zizi começou a perder a memória, a Chalana várias vezes foi esquecida na cidade. Mas a danada era tão famosa que ligavam para a casa da minha avó especialmente para dar seu paradeiro. Praticamente um ser da família. Foi nessa época que eu batizei a pobre de Chalana. A novela Pantanal era uma febre e a tal da embarcação que ia e vinha pelos rios pantaneiros se parecia muito com o nosso Fiat.

Mas muito tempo se passou desde então. Muito. Ela foi reformada há uns anos atrás. Ganhou pintura nova, uma revisão geral. Voltou da oficina zerada, um show. E estava lá, meio guardada meio esquecida na garagem da minha mãe, quando no mês passado precisei revitalizar a botinha ortopédica. É que meu carro foi para o conserto sem data de volta. Uma batida violenta num cruzamento internou meu Tipo, o Chili, e desde então tenho me impressionado muito com o disparate de sentimentos que a Chalana provoca no povo.

Ou as pessoas se irritam profundamente com a sua presença, chegando a balançar a cabecinha negativamente em tom de reprovação, ou há uma comoção diante da preciosidade que é esta máquina do tempo. Acontece de tudo. Olhares curiosos. Pessoas que se cutucam na rua ao vê-la passar - como se fosse a própria garota de Ipanema – gente que francamente sorri... não o riso de deboche - que também acontece - mas o sorriso de admiração. Outro dia teve um senhor que me abordou no sinal perguntando quanto ela valia. Eu, quase ofendida, disse que não vendia um membro da família. Perdi uma baita oportunidade de fazer um bom negócio... o cara tinha cara de colecionador!

É, mas a Chalana não tem só qualidades não. Tem uns defeitinhos também que são de amargar. Como o cheiro horrível que deixa na gente de gasolina. Ou a cara de tacho quando se passa uma marcha... parece que é a gente que dirige mal, mas não é não. Ela arranha mesmo, qualquer marcha. Resmunga para acelerar, reclama para frear. Agora deu para fazer um nheque-nheque quando a gente vai parar. Mas é coisa de gente velha mesmo. Ela tem o direito. São 30 anos servindo a Família Buscapé. Está mais do que na hora de aposentá-la. Por isso mesmo que essa coisa de vendê-la a um ferro velho está me deixando com o coração partido. Não me parece um fim digno e justo para quem teve um vida inteira de dedicação e fidelidade.

Estou pensando seriamente em promover uma reunião familiar para tentar amenizar essa situação. Bom seria mandá-la a um museu. Mas quem vai levar a sério um carro que atende por Chalana? Acho que vou mandar uma carta para o Luciano Huck. Já pensou a Chala no Lata Velha? Olha... a gente nunca sabe o que o destino nos reserva...



Escrito por Tatiana Telink às 02h02
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